DESPERTADOR

Despertador

Todo dia o meu despertador toca três vezes para que eu me dê conta que preciso levantar. Às 8h o primeiro susto, 10 minutos depois eu já estou mais consciente do esforço de deixar a cama, as 8h20 eu não posso mais fugir — é hora de levantar.

Tem coisas que a gente não entende de primeira. Não se desiste assim tão rápido de uma coisa que se deseja. Abrir mão é assumir a covardia de insistir. A teimosia ajuda e atrapalha na mesma proporção perigosa.

Você sabe que não deve insistir naquela história sem pé nem cabeça, mas ainda sim, insiste. Sabe que não deve dar confiar depois de tantas decepções, mas ainda dá. Sabe que está cansado de esperar que o outro tome a decisão de ficar com você, mas ainda espera.

A gente gosta de acreditar na capacidade de aguentar qualquer coisa. Mas, na verdade, não aguenta. E precisamos reconhecer isso, por que no momento que a gente insiste naquilo que não devia vamos morrendo por dentro, vamos nos afogando nas próprias concessões. E no fim de tudo, o pior é descobrir que isso não aconteceu silenciosamente.

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A PRIMEIRA VEZ

A primeira vez

A gente compreende que tudo na vida tem uma primeira vez. O primeiro dia de aula, a primeira viagem, o primeiro amor. São experiências que marcam e que vão dando sentido a nossa trajetória.

Somos movidos por decisões e a vida nos cobra a todo momento a capacidade de tomarmos as decisões certas. É uma conta simples que nos pressiona a minimizar as falhas e sempre buscar o sucesso em tudo. Mas qual a garantia que temos disso?

Antes de acontecer aquilo que tanto esperamos existe um longo caminho que foi trilhado. Às vezes, se quer, damos conta disso. Temos a ideia de que as decisões que tomamos, bem com as suas consequências, é que são os fatores que definem a nossa história. Mas se pararmos para pensar, as coisas que deixam de acontecer têm um poder incrível de definir quem somos e seremos.

Analise: aquele curso que você não escolheu, aquele namoro que não continuou, aquele casamento que não aconteceu, aquela pessoa para quem você não se mostrou, e tantas outras coisas, será que não foram exatamente elas que te trouxeram até aqui?

Muito mais importante do que a chegada é saber aproveitar o ritmo da viagem. A vida é curta demais para enchermos nossos dias de ressalvas e reservas. Para tudo existe uma primeira vez, não é o que dizem?

A vida não um roteiro já escrito. É preciso criar a leveza. E necessário cultivar a sensação do inesperado. E saber a hora certa de cada coisa. O momento mais importante de ser, estar e fazer. E assim, valorizar cada passo, mas um passo por vez.     Assim como o ‘eu te amo’ que após sua primeira menção já quer dizer um pouco menos.

ATÉ QUANDO?

A gente cresce aprendendo a respeitar os outros, obedecer aos mais velhos, cuidar bem dos mais novos, cumprimentar sempre que chegar, pedir licença ao passar, por favor ao pedir, agradecer sempre, elogiar em público e criticar em particular.

Valores que vão moldando nossa relação com o externo. Educação de casa vai à praça, é o tipo de frase que a gente sempre ouviu. E você sabe tanto quanto eu que isso faz todo o sentido.

De maneira alguma isso tudo é ruim. São atitudes que a gente aprende e vai usando em diversas situações. Quando você começa a se entender por gente vai percebendo que a vida tem outras dinâmicas. Nem sempre dá para ser gentil e algumas coisas só acontecem quando a gente se impõe.

O mundo nos aprisiona numa dicotomia entre o certo e o errado. E às vezes a gente pensa que só existem essas alternativas. A vida tem outras demandas. E grande parte delas está para além desse sistema. Pare e pense, quem você é hoje? Quantas decisões você teve que tomar que foram de encontro à maioria?

Existe uma linha bem tênue entre realizar a vontade dos outros e fazer a própria vontade. Nossos pais, por exemplo, almejam em nós o sucesso das oportunidades que não tiveram, prospectam em nós as decisões que eles tomariam e mais, não admitem que possamos optar por caminhos diferentes.

É fácil nadar contra a maré? Não, meu amigo, não é! Mas temos que escrever na vida as nossas verdades. Não existe fórmula pronta, mas você só faz isso com muita coragem e acreditando naquilo que te move. O tempo é o grande senhor de tudo.

Até onde você deve deixar de fazer o que gosta para satisfazer o bem-estar dos outros? Até quando deixar de fazer suas escolhas com medo do que vão falar a respeito? Por que deixar de amar quando essa escolha não agrada totalmente seus familiares? Por que os outros vêm sempre em primeiro lugar? Por que evitar o inevitável? Por que deixar passar? A pior traição é trair a si mesmo. Pense nisso. A vida é sua.

SE

Se o amor for do tamanho da preocupação que eu tenho por você. Se o amor for tão dolorido quanto essa angustia de estar longe. Se o amor for essa certeza de que eu quero tanto quanto você quer. Se o amor for essa teimosia de insistir naquilo que parece impossível. Se o amor for esse desejo insano que aumenta na mesma proporção que a saudade. Se o amor for um monte de palavras trocadas de todas as maneiras que a tecnologia permite. Se o amor for essa ansiedade por notícias ou por qualquer sinal que venha de você. Se o amor for essa admiração à sua coragem de ir em busca daquilo que você quer. Se o amor for uma espécie de atestado de loucura, um convite à insanidade de desejar ardentemente uma pessoa. Se o amor for essa decisão de não querer se quer ficar com outra pessoa. Se o amor for entender por que você ainda não decidiu ficar comigo. Se o amor for não entender por que você ainda não decidiu ficar comigo. Se o amor for a capacidade de abrir mão de você para que você tenha paz. Se o amor for esse nó na garganta, esse aperto e essa vontade de gritar. Se o amor for não deixar de me importar com você. Se o amor for escrever textos secretos sem poder dizer seu nome. Se o amor for as inúmeras formas que meu corpo reage ao seu. Se o amor for contar as horas e os dias exatos do nosso último encontro. Se o amor for entender a sua linguagem. Se o amor for ouvir o seu silêncio. Se o amor for o silêncio no momento de euforia no sexo. Se o amor for abrir mão dos privilégios do machismo para que você reine. Se o amor for o desejo te oferecer um mundo totalmente novo. Se o amor for querer você mais alto. Se o amor for a visão de um futuro incrível. Se o amor for o arrependimento pela forma que entramos na vida um do outro. Se o amor for a compreensão de que entrar na vida do outro foi inevitável. Se o amor for encontrar razão para não desistir. Se o amor for o próprio receio de dizer eu te amo. Se o amor for uma série de coisas que não se pode medir. Se o amor for todas as atitudes que não cabem no certo e no errado. Se o amor for não trair os nossos próprios desejos. Se o amor for a pretensão de ser o seu último homem. Se o amor for o motivo de todas as perguntas. Se o amor for a surpresa de sentir algo novo. Se o amor for essa cegueira para todos os outros rostos. Se o amor for o encaixe milimétrico dos nossos corpos. Se o amor for um lugar com você. Se o amor for o que não sei discernir… e pouco de tudo isso, (…) então, eu amo.

VIDA

Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma você pode aprender a dominar o tempo para que ele te ajude a organizar melhor as coisas. Você pode não saber ao certo quanto tempo vai demorar, mas sabe que uma hora chega.

Enquanto o tempo acelera e pede pressa você pode cultivar os momentos de contemplação. Perceber que as pessoas são como poemas. Assistir ao espetáculo diário que a natureza nos proporciona gratuitamente e não percebemos. Por que estamos com pressa. Por que estamos com um celular na mão.

Enquanto todo mundo espera a cura do mal você pode plantar sementes de boas ações, sem a intenção de ser salvo ou ir para o céu, mas simplesmente por ser uma escolha que vai ajudar a propagar o que é bom e justo. E você pode fazer isso sem precisar de aplausos ou de fotos que comprovem.

Quando o corpo pede um pouco mais de alma é por que os passos que demos nos fizeram deixar partes dela pelo chão. Ou as pessoas que amamos ficaram com essas partes. Cicatrizes não são lembranças do que doeu, mas do que sobrevivemos. Porque a vida não para!

Mas falta tempo para perceber? Falta esforço para conseguir? Falta a constatação de que as mudanças são necessárias? Seja como for, quem quer saber? O mundo com os outros por perto é perigoso, mas sem esse risco não haveria o significado da existência.

A gente se reprime ou se expande de acordo com o que desejamos. E o nosso maior desejo é o de voar alto, ser livre, amar sem medida. Sonhar é o primeiro passo, mas se incomodar é um passo à frente. Vamos na valsa? A vida é tão rara.

SÓ OLHANDO

Já parou para pensar que quando a gente vai fazer compras uma das frases que mais falamos é ‘’tô só olhando’’. E essa deve ser a frase que os vendedores mais ouvem também.

Na maioria das vezes a gente está só olhando mesmo, sem pretensão alguma de comprar. Às vezes estamos apenas pesquisando, o que é extremamente importante, ainda mais em tempos de crise.

Talvez você tenha algum amigo que só aparece quando o barzinho não cobra couvert. E talvez até você ache desnecessário, afinal, é só alguém tocando uma música. Para quê pagar por isso? Mas já parou para pensar em como é bom estar em um ambiente com música ao fundo para deixar ainda melhor o seu tempo com os amigos?

Quanto você pagou pela discografia daquele cantor que você gosta? Quanto custou aquele livro que marcou a sua vida? Qual o preço do ingresso de uma peça de teatro que te emocionou? Quantas verdinhas por aquela linda pintura na parede da sala? Ou quanto você já gastou para estar no show da sua banda preferida?

Por que temos essa mania de apenas observar a arte? Por que não investimos nela? Entende-la como um Bem de consumo? Uma necessidade pela qual vale a pena pagar?

Mais ainda, por que não investir na pessoa que a produz? Quando compramos o produto cultural de um artista estamos gerando a possibilidade de que ele viva da sua arte, a produza mais e com qualidade, e esse é o sonho de todo artista. Além de ser uma forma de contribuir para um mundo mais belo e menos alienado.

Parece slogan de cartão de crédito, mas muitas coisas na vida não têm preço. Tem valor! Preço é o quanto você investe em dinheiro. Valor é o quanto você recebe em significado. O preço é calculável. O valor é inestimável e atemporal. Faça as contas!

ESCREVER É UM ATO INSTANTÂNEO?

O homem senta-se à mesa. Está sobre ela uma folha em branco, o homem tem uma caneta à mão. Ele a debruça sobre o papel e BUM! Está ali um texto completo e à vácuo!

Algumas pessoas sustentam o pensamento de que escrever é um ato simples, que não exige tanto empenho e que não demanda qualquer tipo de esforço. Esse pensamento é uma extensão do primeiro mito que tratei aqui.

Na concepção de que a criação do texto é um processo meramente instantâneo subentende-se que quem possui o dom pode, como em um passe de mágica, conceber um texto do nada. Em outras palavras, um aborto literário.

Felizmente não é sempre assim.

O trabalho com o texto não é apenas técnico, somente instantâneo ou sempre pragmático. Inúmeros processos psíquicos, comportamentais, socioculturais são ativados no momento da concepção (gestação?) de um texto. Soma-se a isso o contexto de vida do escritor, seu arcabouço de habilidades, familiaridade com a língua, conhecimento sintático e literário, sua visão de mundo, crenças, conjunto de valores, etc.

São diversos fatores que solicitam do autor um esforço aplicado, um manuseio delicado de todo o universo ao redor do ato. Sem esquecer de pontos como a intenção, os destinatários do texto, sua funcionalidade e articulação com o leitor/ouvinte/observador.

Dito isto, devemos rebater o pensamento de que a escrita é um ato em si mesmo e abrir espaço para o desenvolvimento de um pensamento complexo, inteligível e mais íntegro com o texto, com a arte de escrever, e, principalmente, com aqueles que se apropriarão da obra em questão para indeterminados fins.

ESCREVER É UM DOM?

São inúmeros os mitos que cercam o ato de escrever. Boa parte deles são fruto de modelos de argumentação criados ao longo do tempo, perpetuados por uma grande parte preguiçosa da população e sustentados por uma massa de educadores mal preparados.

Fala-se da escrita como um dom – uma capacidade ”sobrenatural” que alguns seres humanos possuem. Quando citamos grandes nomes como Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Morais, Machado de Assis, Clarice Lispector esse mito toma ares de verdade. Porém, prefiro pensar que a questão não se resolve de maneira tão direta assim.

Sim, é preciso reconhecer que existe algo metafísico no processo da escrita, isso não está sendo descartado aqui. E parece que algo semelhante acontece com certos escritores e com determinadas obras, pois se mantém intocáveis e relevantes no universo da escrita. É óbvio que existem e sempre existirão críticas aos grandes da Literatura, o que é perfeitamente saudável, mas é preciso concordar que existe essa magia do ”para além de…”.

Eu defendo com unhas e dentes a tese de que qualquer pessoa pode desenvolver a prática da escrita, alguns com mais dificuldade obviamente, mas considero todos como seres capazes.

No âmbito religioso a palavra ‘dom’ aponta para uma espécie de presente, uma capacidade específica, peculiar e potencial para determinada atividade. Essa capacidade não está pronta, mas deve ser desenvolvida ao longo do tempo.

Não sei dizer se a ciência já conseguiu identificar algum gene relacionado a criatividade ou ao talento. Porém, é fácil perceber que algumas pessoas desenvolvem capacidades numa ascendente maior do que outros tantos.

De fato, escrever é um ato acessível a qualquer ser humano minimamente dotado de conhecimento. Escrever bem já é outra questão!

PARA ESCREVER É PRECISO LER

A escrita nunca deve ser encarada como um processo aleatório, isolado ou desassociado de quaisquer outros processos que envolvam o intelecto, a cultura, ou o espírito do ser humano.

É justamente por não ser um ato pragmático que a escrita se entrelaça com a leitura. É impossível separar um bom escritor de um bom leitor. Aliás, ao investigarmos a vida dos grandes escritores da nossa língua descobriremos que eles eram ótimos leitores.

Devemos saber que é praticamente impossível que um mal leitor consiga escrever com qualidade e precisão. Isso fica evidente quando pessoas ficam desesperadas ao ter que produzir uma redação para concurso, vestibular ou processo seletivo.

O fato é que se alguém não consegue desenvolver o habito da leitura estará diminuindo consideravelmente os seus recursos no momento em que for exigido por meio da escrita. Quando lemos vamos construindo um repertório de expressões, ideias, conceitos, palavras, argumentos que nos servirão de base para outros textos nas mais variadas situações.

Muito além dos recursos linguísticos a leitura nos dará conhecimento, experiência e precisão. E estes valores serão primordiais para a elaboração de um texto mais coeso, mais claro e com potencial para produzir reflexão em um maior número de leitores.

O texto precisa agregar valor, direcionar o pensamento à reflexão. Todo texto deve ter ainda um ”quê” de sublimação, aquela sensação de elevação, de fazer o leitor flutuar, imaginar e ir reinventando a si mesmo ao longo dos parágrafos.

Vale salientar que um leitor descomprometido é tão passivo quanto um escritor despreparado!

COEXISTÊNCIA

O mínimo esclarecimento do que se diz ‘espiritualidade’ pressupõem o rompimento com qualquer tipo de fórmula. Semelhante a um animal ora domesticado, o indivíduo quando livre se retrai contra qualquer modelo religioso de engessamento. Para além da tradição, o afrouxar das amarras, leva a noção mais simples e necessária à coexistência: o respeito.

Nessa dimensão encontra-se um estágio de autoafirmação e com ela a despreocupação com a opinião alheia. Essa opinião não perde a importância nem o valor, mas a partir de então, ela não dita mais as regras nem orienta o comportamento.

O sujeito livre não sente a necessidade do combate. Ele compreende que o seu discurso deve ser levantado apenas nos lugares onde é bem recebido. Os debates tolos e frígidos, as conversas tendenciosas, os comentários encharcados de veneno não fazem mais parte do cardápio. Aprende-se a arte da seletividade. Você escolhe quando, onde, como e com quem conversar sobre os temas mais complexos.

Esse homem ou mulher se alimenta no substrato da arte, da leitura, da música e da ciência. Suas portas estão abertas ao empirismo, a experimentação do novo e a transcendência da razão. A grande diferença é que ele não mais se limita a busca no templo ou pelo dogma.

O místico também lhe é por companheiro. O olhar transfigurado lhe permite ver a manifestação da força na labuta diária dos ônibus lotados; ele absorve a paz da meditação na fila do caixa. Ele ouve a conversa divina nos compassos de suas músicas preferidas. Ele medita nos versos dos seus poemas e os tem por oração. Seu unguento transborda quando se apaixona. A energia é perceptível no meio de seus amigos e familiares. E ninguém, absolutamente, ninguém tem o direito de dizer que isso não é sagrado!

NÃO SOMOS ILHAS!

O homem nasceu para se relacionar. A família é o primeiro grupo do qual passamos a fazer parte, é nela que aprendemos valores e disciplina para nos relacionar em sociedade. Crescemos. Então vamos à escola, à universidade, ao trabalho, fazemos amigos e experimentamos uma gama de acontecimentos.

Ao fazermos parte de uma comunidade, não importando a sua ordem, firmamos, ainda que inconscientemente, um pacto de responsabilidade mútua. A fim de se desenvolver o indivíduo observa, experimenta, aprende, opina e constrói em conjunto com seus semelhantes. E é através destas ações que ele deve contribuir para o bem maior: o social.

Assim, a grande aldeia abre as suas portas, dando ao indivíduo a chance de somar, partilhar e compreender que neste universo não somos ilhas.