Minha lista de leituras para 2016

Todo ano eu coloco uma meta pessoal de livros para ler. Nos últimos anos venho conseguindo cumpri-las, com exceção de 2015, onde em meio ao lançamento do meu segundo livro acabei me perdendo.

Nesse ano pretendo melhorar meu compromisso como leito, para tanto estabeleci uma meta mínima de 2 livros por mês, 24 livros ao ano. Óbvio que não lerei apenas estes, até por que um novo livro sempre aparece ou toma o lugar de outro na lista. Mas de toda forma, é uma forma de me orientar.

Aqui vai a lista:

  1. Navegos – Zila Mamede
  2. Leite Derramado – Chico Buarque
  3. A Insustentável Leveza do Ser – Milan Kundera
  4. O Escritor e Sua Missão, Goethe, Dostoiévski, Ibsen e outros – Thomas Mann
  5. Will & Will – John Green
  6. Como os pinguins me ajudaram a entender Deus – Donald Miller
  7. As Consolações da Filosofia – Alain de Botton
  8. Feliz por nada – Martha Medeiros
  9. A Bacia das Almas – Paulo Brabo
  10. A cega natureza do amor – Patricio Jr
  11. Madame Xanadu – Aureliano Medeiros
  12. Pipa Voada Sobre Brancas Dunas – Junior Dalberto
  13. Meus Segredos com Capitu, Livros, Leituras e outros Paraísos – Ana Elisa Ribeiro
  14. Um Copo de Cólera – Raduan Nassar
  15. Não basta ser playboy. Tem que ser DJ! – Carlos Fialho
  16. Um tanto de Coisas – Ana Nunes
  17. Cem sonetos de amor – Pablo Neruda
  18. A Arte de Ter Razão – Arthur Schopenhauer
  19. 200 crônicas escolhidas – Rubem Braga
  20. Nação Crioula – José Eduardo Agualusa
  21. Manual Prático de Levitação – José Eduardo Agualusa
  22. Para Onde Vai O Amor? -Fabrício Carpinejar
  23. O Fio das Missangas – Mia Couto
  24. O que é ideologia – Marilena Chaui

A medida que for terminando as leituras vou postando aqui as impressões sobre cada livro.

E você, tem alguma lista pronta já?

Das leituras de Hermann Hesse

“… e tinha nas questões espirituais aquela quase fria objetividade, aquela segurança de pensar e de saber que só possuem os homens verdadeiramente espirituais, que carecem de toda ambição, que nunca desejam brilhar nem persuadir aos demais nem arvorar-se em donos da verdade.”
“Arde então em mim um selvagem anseio de sensações fortes, um ardor pela vida desregrada, baixa, normal e estéril, bem como um desejo louco de destruir algo, seja um armazém ou uma catedral, ou a mim mesmo, de cometer loucuras temerárias, de arrancar a cabeleira a alguns ídolos venerandos, de entregar a um casal de estudantes rebeldes os ansiados bilhetes de passagem para Hamburgo, de violar uma jovem ou de torcer o pescoço a algum defensor da ordem e da lei. Pois o que eu odiava mais profundamente e maldizia mais, era aquela satisfação, aquela saúde, aquela comodidade, esse otimismo bem cuidado dos cidadãos, essa educação adiposa e saudável do medíocre, do normal, do acomodado.”
“Além disso, agrada-me ocontraste que apresenta a minha vida, esta minha vida solitária, sem amor, gasta e inteiramente desordenada…”
“Solidão é independência, com ela eu sempre sonhara e a obtivera afinal após tantos anos. Era fria, oh! sim!, mas também era silenciosa e grande como o frio espaço silente em que giram as estrelas.”
“O que chamamos cultura, o que chamamos espírito, alma, o que temos por belo, formoso e santo, seria simplesmente um fantasma, já morto há muito, e considerado vivo e verdadeiro só por meia dúzia de loucos como nós? Quem sabe se realmente, nem era verdadeiro, nem sequer teria existido? Não teria sido mais que uma quimera tudo aquilo que nós, os loucos, tanto defendíamos?”
“Deve haver muitos homens que tenham em si muito de cão ou de raposa, de peixe ou de serpente sem que com isso experimentem maiores dificuldades. Em tais casos, o homem e o peixe ou o homem e a raposa convivem normalmente e nenhum causa ao outro qualquer da no; ao contrário, um ajuda o outro, e muito homem há que levou essa condição a tais extremos a ponto de dever sua felicidade mais à raposa ou ao macaco que nele havia, do que ao próprio homem.”
“… e quando há dois inimigos mortais num mesmo sangue e na mesma alma, então a vida é uma desgraça. “

Testamento

Ana Paula Tavares

 

À prostituta mais nova
Do bairro mais velho e escuro,
Deixo os meus brincos, lavrados
Em cristal, límpido e puro…

E àquela virgem esquecida
Rapariga sem ternura,
Sonhando algures uma lenda,
Deixo o meu vestido branco,
O meu vestido de noiva,
Todo tecido de renda…

Este meu rosário antigo
Ofereço-o àquele amigo
Que não acredita em Deus…

E os livros, rosários meus
Das contas de outro sofrer,
São para os homens humildes,
Que nunca souberam ler.

Quanto aos meus poemas loucos,
Esses, que são de dor
Sincera e desordenada…
Esses, que são de esperança,
Desesperada mas firme,
Deixo-os a ti, meu amor…

Para que, na paz da hora,
Em que a minha alma venha
Beijar de longe os teus olhos,

Vás por essa noite fora…
Com passos feitos de lua,
Oferecê-los às crianças
Que encontrares em cada rua…

As mãos dos Pretos

Luís Bernardo Honwana

Já nem sei a que propósito é que isso vinha, mas o Senhor Professor disse um dia que as palmas das mãos dos pretos são mais claras do que o resto do corpo porque ainda há poucos séculos os avós deles andavam com elas apoiadas ao chão, como os bichos do mato, sem as exporem ao sol, que lhes ia escurecendo o resto do corpo. Lembrei-me disso quando o Senhor Padre, depois de dizer na catequese que nós não prestávamos mesmo para nada e que até os pretos eram melhores do que nós, voltou a falar nisso de as mãos deles serem mais claras, dizendo que isso era assim porque eles, às escondidas, andavam sempre de mãos postas, a rezar.

Eu achei um piadão tal a essa coisa de as mãos dos pretos serem mais claras que agoraé ver-me a não largar seja quem for enquanto não me disser porque é que eles têm as palmas das mãos assim tão claras. A Dona Dores, por exemplo, disse-me que Deus fez-lhes as mãos assim mais claras para não sujarem a comida que fazem para os seus patrões ou qualquer outra coisa que lhes mandem fazer e que não deva ficar senão limpa.
O Senhor Antunes da Coca-Cola, que só aparece na vila de vez em quando, quando as coca-colas das cantinas já tenham sido todas vendidas, disse-me que tudo o que me tinham contado era aldrabice. Claro que não sei se realmente era, mas ele garantiu-me que era. Depois de eu lhe dizer que sim, que era aldrabice, ele contou então o que sabia desta coisa das mãos dos pretos. Assim:
Antigamente, há muitos anos, Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo, Virgem Maria São Pedro, muitos outros santos, todos os anjos que nessa altura estavam no céu e algumas pessoas que tinham morrido e ido para o céu, fizeram uma reunião e decidiram fazer pretos. Sabes como? Pegaram em barro, enfiaram-no em moldes usados e para cozer o barro das criaturas levaram-nas para os fornos celestes; como tinham pressa e não houvesse lugar nenhum, ao pé do brasido, penduraram-nas nas chaminés. Fumo, fumo, fumo e aí os tens escurinhos como carvões. E tu agora queres saber porque é que as mãos deles ficaram brancas? Pois então se eles tiveram de se agarrar enquanto o barro deles cozia?!”.
Depois de contar isto o Senhor Antunes e os outros Senhores que estavam à minha volta desataram a rir, todos satisfeitos.
Nesse mesmo dia, o Senhor Frias chamou-me, depois de o Senhor Antunes se ter ido embora, e disse-me que tudo o que eu tinha estado para ali a ouvir de boca aberta era uma grandessíssima pêta. Coisa certa e certinha sobre isso das mãos dos pretos era o que ele sabia: que Deus acabava de fazer os homens e mandava-os tomar banho num lago do céu. Depois do banho as pessoas estavam branquinhas. Os pretos, como foram feitos de madrugada e a essa hora a água do lago estivesse muito fria, só tinham molhado as palmas das mãos e as plantas dos pés, antes de se vestirem e virem para o mundo.

Mas eu li num livro que por acaso falava nisso, que os pretos têm as mãos assim mais claras por viverem encurvados, sempre a apanhar o algodão branco de Vírginia e de mais não sei aonde. Já se vê que a Dona Estefânia não concordou quando eu lhe disse isso. Para ela é só por as mãos desbotarem à força de tão lavadas.

Bem, eu não sei o que vá pensar disso tudo, mas a verdade é que ainda que calosas e gretadas, as mãos dum preto são sempre mais claras que todo o resto dele. Essa é que é essa!
A minha mãe é a única que deve ter razão sobre essa questão de as mãos de um preto serem mais claras do que o resto do corpo. No dia em que falámos disso, eu e ela, estava-lhe eu ainda a contar o que já sabia dessa questão e ela já estava farta de se rir. O que achei esquisito foi que ela não me dissesse logo o que pensava disso tudo, quando eu quis saber, e só tivesse respondido depois de se fartar de ver que eu não me cansava de insistir sobre a coisa, e mesmo assim a chorar, agarrada à barriga como quem não pode mais de tanto rir. O que ela me disse foi mais ou menos isto:
Deus fez os pretos porque tinha de os haver. Tinha de os haver, meu filho, Ele pensou que realmente tinha de os haver… Depois arrependeu-se de os ter feito porque os outros homens se riam deles e levavam-nos para as casas deles para os pôr a servir como escravos ou pouco mais. Mas como Ele já não os pudesse fazer ficar todos brancos porque os que já se tinham habituado a vê-los pretos reclamariam, fez com que as palmas das mãos deles ficassem exactamente como as palmas das mãos dos outros homens. E sabes porque é que foi? Claro que não sabes e não admira porque muitos e muitos não sabem. Pois olha: foi para mostrar que o que os homens fazem, é apenas obra dos homens… Que o que os homens fazem, é feito por mãos iguais, mãos de pessoas que se tiverem juízo sabem que antes de serem qualquer outra coisa são homens. Deve ter sido a pensar assim que Ele fez com que as mãos dos pretos fossem iguais às mãos dos homens que dão graças a Deus por não serem pretos”.
Depois de dizer isso tudo, a minha mãe beijou-me as mãos. Quando fugi para o quintal, para jogar à bola, ia a pensar que nunca tinha visto uma pessoa a chorar tanto sem que ninguém lhe tivesse batido.

***

Das leituras de Maíra Viana (II)

… e as palavras seguem moldando o que se tem por dentro, seja alma, espírito, seja o medo. Há espaços dentro da gente que só a poesia alcança.

Maíra Viana, escreveu em O Teatro Mágico em palavras II – diálogos:

Sossega! Espera mais um pouco: pra mudar a cor do cabelo, o tamanho da saia, as aventuras descritas no querido diário.

( … )

Maldita hora que resolveu fugir de casa! Se pudesse prever a avalanche de coisas que lhe sucederiam nesse meio caminho, certamente teria escolhido permanecer escondida na barra da saia da mã.

( … )

”A vida é o que a gente faz com o que incomoda.”

( … )

Eu ando procurando Deus. Em igreja, centros de espiritismo, tempos budistas, programa de televisão, mas ele não está em nenhum lugar possível. Às vezes, eu acho que Deus se esconde de mim desde o dia em que eu nasci.

( … )

Porque não construístes um mundo onde o amor delas fosse possível? Que mania de perseguição com essas moças, que só fazem padecer em tuas mãos.

( … )

Fingia a normalidade, como todos ali também o faziam, cada um por um motivo próprio e condizente.

( … )

Das leituras de Gaston Bachelard (I)

Gaston Bachelard escreveu em A chama de uma vela

… a renovação da fantasia recebe um sonhador na contemplação de uma chama solitária.

Diante dela, desde que se sonhem o que se percebe não é nada, comparado com o que se imagina.
… mas será que um livro acaba alguma vez des descrever toda a convicção de seu autor?

Todo sonhado inflamado é um poeta em potencial.

As fantasias da pequena luz nos levam de volta ao reduto da familiaridade.

sa
Um coração sensível gosta de valores frágeis.


É preciso esforçar-se para achar o ser verdadeiro sob a caricatura.

É necessário que se tenha vinganças a executar para imaginar o inferno.

Existe um parentesco entre a lamparina que vela e a alma que sonha. Tanto para uma quanto na luz fraca encontra-se a mesma paciência.

A chama ilustra a solidão do sonhador, ilumina a fronte oensativa. A vela é o astro da página branca.

Quando uma grande ausência deixa um vazio em uma residência, um lampião … vindo de não sei qual passado, mantém uma presença, espera, com uma paciência de lampião, o exilado.

Tudo é nosso, tudo é para nós, quando reecontrarmos em nossos devaneios ou na comunicação dos devaneios dos outros as raízes da simplicidade.

A inteligência é inepta quando é preciso analisar fantasia de ignorantes.

Apenas uma contradição lhe basta para atormentar a natureza e liberar o sonhado da banalidade dos julgamentos.

É preciso que as pessoas racionais perdoem àqueles que escutam os demônios do tinteiro.

Mas quando se sonha mais profundamente, o belo equilibrio do pensamento entre a vida e a morte é perdido. No coração de um sonhador de vela, que resonãncia tem essa palavra: apagar-se! As palavras, sem dúvida, desertam de suas origens e retomam uma vida estranha, uma vida emprestada ao acaso de simples comparações.

Mas no cubículo de um sonhador os objetos familiares tornam-se mitos do universo. A vela que se apaga é um sol que morre. A vela morre mesmo mais suavemente que o astro celeste. O pavio se curva e escurece. A chama tomou, na escuridão que a encerra, seu ópio. E a chama morre bem: ela morre adormecendo.

Das leituras de Rubem Alves (I)

Rubem Alves, escreveu em Pensamentos eu penso quando não estou pensando.


… muitas virtudes do espírito nascem da incopetência do corpo.

( … )
Há uma disciplina de silêncio não total, mas de uma fala mínima. Só falar quando a fala fosse melhorar o silêncio.

( … )

Deus é a beleza que se ouve no silêncio.
( … )

O que vemos é a imagem da pessoa amada, mas o que imaginamos são os brinquedos que julgamos guardados dentro dela.
( … )

Quando sentimos a beleza da música, tornamo-nos música. Somos a beleza que estamos ouvindo.

( … )

Mas, para o coração, o centro do universo é o lugar do amor…

( … )

Quando se para de pensar, experimenta-se a felicidade, porque, parando-se de pensar, não se pensa nas próprias sarnas e burrices.

( … )

Não tenho problemas com Deus. Mas tenho muitos problemas com aquilo que os homens pensam sobre Deus.

( … )

As lâmpadas valem pelas cenas que iluminam. As inteligências valem pelas cenas que iluminam.

( … )

Só se pode resumir um livro se ele está cheio de palavras supérfluas.

Pois o que escrevo é feito com pedaços de mim. Sou resumível?

( … )

A religião ajuda as pessoas a serem bem-sucedidas.

( … )

O escritor é um pintor de cenários.

Frequentemente escrevemos para não deixar que as cenas nos fujam…

( … )

Porque eu também tenho despedidas a cumprir.

( … )

A beleza não elimina a tragédia, mas a torna suportável. A felicidade é um dom que deve ser simplesmente gozado. Ela se basta. Ela não cria. Não produz pérolas. São os que sofrem que produzem a beleza, para parar de sofrer.

( … )

O óvulos, produto da mulheres, tem origam na solidão. Já os espermatozoides, produtos dos homens, têm origem na maratona.

( … )

Livros são brinquedos para o pensamento.

As crianças têm uma sensibilidade especial. Sabem que toda ausência passageira é metáfora de uma ausência definitiva.

( … )

Inspiração é quando a gente não sabe de onde a ideia vem.

( … )

O pássaro só é encantado quando é livre.

( … )

Mas quando é que o amor se realiza? O amor se realiza quando recebemos de volta as coisas que amamos e perdemos. É por isso que sentimos saudade. A saudade é a nossa alma dizendo para onde ela quer voltar.


Das leituras de Maíra Viana (I)

Apreender e compreender, partilhar. Esse é o diálogo singelo que pode unir pessoas, fazer com que as almas se toquem. Lendo María Viana eu comecei a dialogar com as músicas livres de O Teatro Mágico e por consequência, consegui dialogar com algumas dores e algumas esperanças que trago no peito. Há espaços dentro da gente que só a poesia alcança.

Maíra Viana, escreveu em O Teatro Mágico em palavras II – diálogos:

O que faz com que algumas pessoas sejam nossas e todo o resto do mundo não?

( … )

… ver a vida me acenar novamente o sentido das coisas, à partir de uma pequena cova.

( … )

… em algum momento da vida, daqueles em que o tempo para, os letreiros sobem e a gente se pega com oolhar longíquo, imaginando, da padaria, o que vem depois, quando a trilha acaba.

( … )

Nada mais me pertence. Meus sonhos, meus medos, as coisas que sou e não sei, as coisas que quero e não fui. Como posso impedir o inevitável, se já não sou o que era momentos atrás? E meus pés, que fazem eles? Não me respeitam mais e lhe acompanham como se tivessem, para sempre, sidos seus. Como se atrevem, você e essas partes todas de mim? Não me reconheço mais, sabendo o que sei agora. Entendendo que o que mais quero é deixar que me leves pelo braçom flutuando nesse bosque-mar que vislumbro, ambos se inciando em algo mútuo, torcendo sempre para que bons ventos possam nos alcançar.

( … )

O amor violava todos os espaços, superlotava o armário do quarto, transbordava a pia em pilhas de pratos, persistia em arranhar no violão aquele seu sambinha chato.

( … )

Todo dia eu acordo e me separo de você. Sigo meu caminho e busco outros prazeres. Preencho as lacunas de pensamento com chocolate e televisão. Troco móveis de lugar para que nada me lembre o que eu não devo lembrar. Em diante do espelho, me convenço que tudo isso é essencial.

Então, fica combinado assim: eu me salvo e você se salva. E a gente se vê qualquer dia.

Todo dia eu acordo e me separo de você. Pago contas, anoto recados, vou ao cinema, pego trânsito e pareço seguir em frente. Me separo de você e de tudo o que eu não quero mais viver.



O problema é que toda noite eu adormeço e me caso com você de novo.

( … )

Já tampei os ouvidos, já soltei bomba, já mandei tudo pelos ares. E está tudo aqui dentro outras vez: cheiros, sons, diálogos tradios…

( … )

E, poxa, às vezes a gente só precisa dizer “alô” ou dividir uma garrafa de cerveja com alguém, num boteco de calçada.

Ando tentando entender a essência desse povo todo, que habita o meu espaço, o chão da Terra, a nossa era. Eu observo as minhas pessoas.

Falo de uma frequência afetiva que faz com que a gente se perceba, se pertença, se adote; oscilando encontros e desencontros, em ondas de afinidade que nos selam uns nos outros, mesmo que distante, independente de que horas são e de onde estamos agora!

( … )

Levávamos conosco o amuleto da coragem e um punhado de fé suficiente pra acreditar que o outro matinha-se vivo, talvez já do lado de lá, à espera do que haveria de ser quando estivessem novamente se fazendo companhia.

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Das leituras de Alberto Caeiro (II)

Continuo a passear pelos verdes campos com Caeiro. Trago mais alguns trechos de nossas conversas sob o sol radiante de Lisboa…

Alberto Caeiro, escreveu em O guardador de Rebanhos:

XIV
Não me importo com as rimas. Raras vezes
Há duas árvorees iguais, uma ao lado da outra.
Penso e escrevo como as flores têm cor
Mas com menos perfeição no meu modo de exprimir-me
Porque me falta a simplicidade divina
De ser todo só o meu exterior

( … )

XVIII
Quem dera que eu fosse o burro do moleiro
E que ele me batesse e me estimasse…

Antes isso que ser o que atravessa a vida
Olhando para trás de si e tendo pena…

( … )

XXI
Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Seria mais feliz um momento…
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural…

( … )

XXIV
O que nós vemos das coisas são as coisas.
Porque veríamos nós uma coisa se houvesse outra?
Porque é que ver e ouvir seria iludirmo-nos
Se ver e ouvir são ver e ouvir?

O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê,
Nem ver quando se pensa.

( … )

XXVI
Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta,
Em que as coisas têm toda a realidade que podem ter,
Pergunto a mim próprio devagar
Porque sequer atribuo eu
Beleza às coisas.

Uma flor acaso tem beleza?
Tem beleza acaso um fruto?
Não: têm cor e forma
E existência apenas.
A beleza é o nome de qualquer coisa que não existe
Que eu dou às coisas em troca do agrado que me dão.
Não significa nada.
Então porque digo eu das coisas: são belas?

( … )

XXVII
Mas as coisas não têm nome nem personalidade:
Existem, e o céu é grande e a terra larga,
E o nosso coração do tamanho de um punho fechado…

Bendito seja eu por tudo quanto não sei,
Gozo tudo isso como quem sabe que há sol.

( … )

XXVIII
É preciso não saber o que são flores e pedras e rios
Para falar dos sentimentos deles.
Fala da alma das pedras, das flores, dos rios,
É falar de si próprio e dos seus falsos pensamentos,
Graças a Deus que são as pedras são só pedras,
E que os rios não são senão rios,
E que as flores são apenas flores.

( … )
XXIX
Nem sempre sou igual no que digo e escrevo.
Mudo, mas não mudo muito.

….

Das leituras de Alberto Caeiro (I)

É maravilhosa a sensação de encontro que a poesia nos causa; você vai lendo um poema, vai apreendendo um poeta, devora as páginas de um livro e se enxergando nas entrelinhas. Alberto Caeiro é um dos heterônimos do grande Fernando Pessoa e a cada dia que sua obra me é apresentada vou me deparando com partes minhas que outrora habitavam um certo baú nos outeiros por detrás dos montes de Portugal…

Alberto Caeiro, escreveu em O guardador de Rebanhos:

I

Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é uma ambição minha.
É a minha maneira de estar sozinho.

( … )

Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.

( … )

Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias,
Ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.

( … )

II
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar…
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não penasr…

( … )

V
Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

( … )

Que ideia tenho eu das coisas?
Que opinião tenho sober as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar.

( … )

O mistério das coisas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério

( … )

Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas coisas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

( … )

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as coisas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina).

( … )

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e o sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

( … )

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

———————
E a medida que as páginas passem, trago mais.

Sou de vidro

Lídia Jorge, escritora portuguesa.

Meus amigos sou de vidro
Sou de vidro escurecido
Encubro a luz que me habita
Não por ser feia ou bonita
Mas por ter assim nascido
Sou de vidro escurecido
Mas por ter assim nascido
Não me atinjam não me toquem
Meus amigos sou de vidro

Sou de vidro escurecido
Tenho fumo por vestido
E um cinto de escuridão
Mas trago a transparência
Envolvida no que digo
Meus amigos sou de vidro
Por isso não me maltratem
Não me quebrem não me partam
Sou de vidro escurecido

Tenho fumo por vestido
Mas por assim ter nascido
Não por ser feia ou bonita
Envolvida no que digo
Encubro a luz que me habita

Exílio

”… Tudo é harmonia. Os beija-flores flutuam. No campo verde, as vacas pastam tranquilamente. Ao lado direito, o rio escorre entre pedras. O vento balança as árvores. No céu azul, as nuvens navegam sem saber para onde vão.”


Rubem Alves, em Pensamentos eu penso quando não estou pensando.

Para ser grande, sê inteiro

03.03.2012

O 4º período do curso de Letras me trouxe a oportunidade de pagar a disciplina Literatura Portuguesa II e de cara, um encontro mais demorado e atencioso com Fernando Pessoa. Nos próximos dias vou continuar postando alguns dos seus textos que temos discutido em sala e que têm me tocado bastante. Na última aula me aprisionei nestes:

“Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe o quanto és
No mínimo que fazes…”

Lindo, não é mesmo?

Tenham um excelente fim de semana, meus queridos!

Todas as cartas de amor

24.02.2012

Álvaro de Campos
(heterônimo de Fernando Pessoa)


Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

O Guardador de Rebanhos

23.02.2012


Alberto Caeiro
(heterônimo de Fernando Pessoa)



Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.

Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.

Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.

Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.

E se desejo às vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),

É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.

Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas idéias,
Ou olhando para as minhas idéias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.

Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predileta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer cousa natural —
Por exemplo, a árvore antiga
À sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.

Das leituras de Mario Prata (III)

MARIO PRATA escreveu em CEM MELHORES CRÔNICAS:



Retirado da crônica ”Criança diz cada uma…
(Págs 127)


“Já disse que meu filho se chama Antonio. Um dia, ele tinha uns quatro anos, dei uma bronca nele sei lá por que e ele me xingou, feroz:
– Você é uma anta!!!
No que eu, sem perder a calma, perguntei:
-Ah, é? E quem é filho de anta, o que que é?
Pensou dois segundos e me desarmou completamente:
– Filho de anta é… é… Antonio!”

( … )


“E aquela religiosa mãe que pegou o filho e um amiguinho dentro do banheiro fazendo uma troca-troca? Só que, quando ela entrou, o filho queridinho e santo levava uma nítida desvantagem no ato. Mas o pequeno pecador não se abalou:
– Mas mãe, eu comi primeiro!”

( … )


“E tinha um garotinho que era infernal. Brigava todo dia na escola. Um dia, no almoço, o pai, para testar seus conhecimentos bíblicos (ele estudava num colégio de padre), perguntou:
– Meu filho, me diz quem foi que jogou a pedra no Golias.
O garoto desatou a chorar.
– Tá vendo, mãe? Tudo eu. Tudo eu. Juro, pai, juro pelo que é de mais sagrado que eu nem conheço esse menino.”

Retirado da crônica ”Espelho mágico
(Págs 135)


“O que será desta geração que vem nascendo conhecendo primeiro a ficção e depois a realidade?”


Retirado da crônica ”Um noite com Rubem Braga
(Págs 157)


“Muito difícil diferenciar uma crõnica de um artigo, assim como o conto de uma novela e uma novela de um romance. Tem gente que diz que é uma questão de tamanho, linhas”

“Os espelhos deveriam refletir melhor antes de refletirem certas imagens!”, citando Rubem Braga

“Como se você visse com o cérebro e escrevesse com o coração.”

Retirado da crônica ”Naquela mesa tá faltando um
(Págs 170)


“… quando se discute a relação é porque não existe mais relação.”
Retirado da crônica ”O isqueiro
(Págs 201)


“E contra instinto a gente não pode brigar. Principalmente quando o instinto é sincero.”

Das leituras de Mario Prata (II)

MARIO PRATA escreveu em CEM MELHORES CRÔNICAS:



Trechos retirados da crônica ”Separei e mudei
(Págs 49, 50, 51)


“Mas a sabedoria da separação está em cometê-la antes que a situação se deteriore de vez.”


“É duro cara, cair na real, separar e mudar. Principalmente quando a gente ama, e como ama, a pessoa separada.”

Trecho retirado da crônica ”A empregada
(Págs 74, 75, 76)

“No Imposto de Renda, já consta empregada doméstica como profissão. Já escritor… Morro de inveja delas. São reconhecidas como trabalhadoras necessárias e honestas.”

Trechos retirados da crônica ”De homem para homem
(Págs 106, 107)

“As mulheres não sacam que o homem tem que encher um tubo – de tamanho variável – de sangue. Snague este que, enquanto está lá, deixa, obviamente, de estar em outro lugar. Coração & pulmão, por exemplo.”

“É preciso espaço para a respiração, para a musculação voltar ao normal. Mas elas não respeitam o repouso do guerreiro. Gozado, né? Estou falando sério, não estou gozando, não!”

Trecho retirado da crônica ”Afinal, quem é louco?
(Págs 113)

“E eu, como escritor, adoro observar as pessoas, imaginar os nomes, a profissão, quantos filhos têm, se são rotarianos ou leoninos, corinthianos ou palmeirenses. Acho que todo escrito gosta deste brinquedo, no mínimo, criativo.”

Trechos retirados da crônica ”Culpa
(Págs 118)

“No princípio era o verbo e eu achaba que só eu me sentia culpado. Com o passar do tempo (e da verba) fui descobrindo que todo criador tem culpa. Não no cartório. Mas na consciência.”

“Todo mundo acha que a pessoa que vive de criar, ou seja, um criador, não faz nada o dia inteiro. Fica só pensando. É verdade. O problema é que ninguém considera o trabalho de pensar como ofício.”

“Será que só pode ser considerado trabalhado o sujeito que fica o dia inteiro numa mesa de escritório, ouvindo pela janela olha a uva de Atibaia, melancia barata, melancia barata?”

Das leituras de Mario Prata (I)

MARIO PRATA escreveu em CEM MELHORES CRÔNICAS:


Trechos retirados da crônica ”Amor só de letras
(Págs 242, 243)

“Sim, pela primeira vez nesta nossa humanidade já tão velhinha, as pessoas estão se conhecendo primeiramente pela palavra escrita. E lida, é claro.

Já disse, isso envaidece qualquer escritor. Agora, o texto pode levar ao amor. Uma espécie de amor-de-texto, amor-de-perdição.

A relação, o namoro, começa ali no monitor. Voce pode passar algumas horas, dias e até semanas sem saber nada da outra pessoa. Só conhece o texto dela.

E é com o texto que vai se fazendo charme. Você ainda não sabe se a pessoa é bonita ou feia, gorda ou magra, jovem ou velha. E, se não for esperto, nem se é homem ou mulher. Mas vai crescendo uma coisa dentro de você. Algo parecidíssimo com amor. Pelo texto.

[ … ]

No caso do amor ali nascido, a feiúra, o peso, a cor, a idade ou a nacionalidade não importam. O que é mais importante é o texto. O texto é a causa do amor.”


Trechos retirados da crônica ”Pra cumemuié, uai
(Págs 40, 41)

“Mas a verdade é que é a mulher o objetivo do homem.”

“Um mundo só de homens seria o grande erro da criação.”

“… tudo que o homem faz, tudo, é com um único objetivo: cumemuié. O cara faz um esforço desgraçado para ficar rico pra quê: O sujeito quer ficar famoso pra quê? O indivíduo malha, faz exercícios pra quê? Mulher!”

“As mulheres, antigamente, ficavam trancadas dentro de casa e se tratavam e ficavam bonitas apenas para os seus homens. Ai começaram a dar liberdade pras danadas e deu no que deu. O mundo ganhou vida, além de beleza, é claro.”

“E, se você que está lendo isto aqui, for um homem, tente imaginar a sua vida sem nenhuma mulher. Aí na sua casa, onde você trabalha, na rua, nas telenovelas. Só homens. Já pensou? Filmes só com homens? Romance sem uma Capitu ou uma Madame Bovary? Um casamento sem noiva? Um mundo sem cinturas e saboneteiras? Um mundo sem sogras? Enfim, um mundo sem metas.”



Um pouco mais de Dom Casmurro (IV)

Machado de Assis escreve em Dom Casmurro:

“… tão certo é que o destino, como todos os dramaturgos, não anuncia as peripécias nem o desfecho. Eles chegam a seu tempo, até que o pano cai, apagam-se as luzes, e os espectadores vão dormir”. (Pág. 103)

“Ela amou o que me afligira.
Eu amei a piedade dela.”
(Pág. 104)

“… nem tudo é claro na vida ou nos livros” (Pág. 107)

“Um dos costumes da minha vida foi sempre concordar com a opinião provável do meu interlocutor, desde que a matéria não me agrava, aborrece ou impõe.” (Pág. 115)

“Custa-me dizer isto, mas antes peque por excessivo que por diminuto.” (Pág. 116)

“Há consolações maiores, decerto, e uma das mais excelentes é não padecer esse nem outro mal algum, mas a natureza é tão divina que se diverte com tais contrastes, e aos mais nojento ou mais aflitos acena com uma flor.” (Pág. 124)

“A natureza é simples. A arte é atrapalhada.” (Pág. 127)

“… a vaidade é um princípio de corrupção.” (Pág. 132)

“… e não vi que essa menina travessa e já de olhos pensativos, era a flor caprichosa de um fruto sadio e doce…” (Pág. 135)

“A felicidade tem boa alma”. (Pág. 138)

Aproveitando pra adicionar mais citações ao post:



“Purgatório é uma casa de penhores, que empresta sobre todas as virtudes, a juro alto e prazo curto. Mas os prazos renovam-se, até que um dia uma ou duas vitudes medianes pagam todos os pecados grande e pequenos.” (Pág. 152)

“Os intantes do diabo intercalavam-se nos minutos de Deus, e o relógio foi assim marcando alternativamente a minha perdição e a minha salvação”. (Pág. 158)

“Há remorsos que não nascem de outro pecado, nem tê maior duração”. (Pág. 158)

”… tudo são pretextos a um coração agoniado”. (Pág. 164)
“As pessoas valem o que vale a afeição da gente”.
(Pág. 168)

“O costume valeu muito contra o efeito da mudança; mas a mudança fez-se, não à maneira de teatro, fez-se como a manhã que aponta vagarosa, primeiro que se possa ler uma carta, depois lê-se a carta na rua, em casa, no gabinete, sem abrir as janelas; a luz coada pelas persianas basta a distinguir as letras.” (Pág. 168)

“Mas o que pudesse dissimular ao mundo, não podia fazê-lo a mim, que vivia mais perto de mim que ninguém”. (Pág. 169)

“Já entre nós só faltava dizer a palavra última; nós a líamos, porém, nos olhos um do outro, vibrante e decisiva…” (Pág. 169)

Eça foi boa!

Eça de Queiroz acerca do Realismo em Portugal, por volta de 1870:

“É a negação da arte pela arte; é a proscrição do convencional, do enfático, do piegas. É a abolição da retórica considerada arte de promover a emoção, usando da inchação do período, da epilepsia da palavra, da congestação dos tropos. É a análise com o fito na verdade absoluta. Por outro lado, o Realismo é uma reacção contra o Romantismo: o Romantismo era a apoteose do sentimento; o Realismo é a anatomia do carácter, é a crítica do homem. É a arte que nos pinta a nossos próprios olhos – para condenar o que houver de mau na nossa sociedade”. “É a negação da arte pela arte; é a proscrição do convencional, do enfático, do piegas. É a abolição da retórica considerada arte de promover a emoção, usando da inchação do período, da epilepsia da palavra, da congestação dos tropos. É a análise com o fito na verdade absoluta. Por outro lado, o Realismo é uma reacção contra o Romantismo: o Romantismo era a apoteose do sentimento; o Realismo é a anatomia do carácter, é a crítica do homem. É a arte que nos pinta a nossos próprios olhos – para condenar o que houver de mau na nossa sociedade”.


E sobre os preceitos a seguir na nova escola, acrescentou:

“A norma agora são as narrativas a frio, deslizando como as imagens na superfície de um espelho, sem intromissões do narrador. O romance tem de nos transmitir a natureza em quadros exactíssimos, flagrantes, reais”.

Nada como um seminário no final de período para lhe tirar o sono!!

Amaritudo

Antero de Quental, in “Sonetos”

Só por ti, astro ainda e sempre oculto,
Sombra do Amor e sonho da Verdade,
Divago eu pelo mundo e em ansiedade
Meu próprio coração em mim sepulto.

De templo em templo, em vão, levo o meu culto,
Levo as flores d’uma íntima piedade.
Vejo os votos da minha mocidade
Receberem somente escárnio e insulto.

À beira do caminho me assentei…
Escutarei passar o agreste vento,
Exclamando: assim passe quando amei! —

Oh minh’alma, que creste na virtude!
O que será velhice e desalento,
Se isto se chama aurora e juventude?

Liberdade

Fernando Pessoa



Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa…

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto melhor é quando há bruma.
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças…
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca…

Um pouco mais de Dom Casmurro (III)

Machado de Assis escreve em Dom Casmurro:

“Eis aqui um que não fará grande carreira no mundo, por menos que as emoções o dominem…” (Pág. 52)

“Assim, apanhados pela mãe, éramos dois e contrários, ela encobrindo com a palavra o que eu publicava pelo silêncio.” (Pág. 52)

“A vocação é tudo. O estado eclesiástico é perfeitíssimo, contanto que o sacerdote venha já destinado do berço. Não havendo vocação, falo de vocação sincera e real, um jovem pode muito bem estudar letras humanas, que também são úteis e honradas.” (Pág. 59)“A vocação é muito, mas o poder de Deus é soberano. Um homem pode não ter gosto à igreja e até persegui-la, e um dia a voz de Deus lhe fala, e ele sai apóstolo; veja São Paulo.” (Pág. 59)

“Quantas intenções viciosas há assim que embarcam, a meio caminho, numa frase inocente e pura! Chega a fazer suspeitar que a mentira é, muita vez, tão involuntária como a transpiração.” (Pág. 62)

“Há nessa cumplicidade um gosto particular; o pecado em comum iguala por instantes a condição das pessoas…” (Pág. 71)

“Tive um sobressalto. Havia embrulhado em um papel um cacho dos meus cabelos, tão grandes e tão bonitos, cortados na véspera. A intenção era levá-los a Capitu, ao sair; mas tive idéia de dá-lo ao pai, a filha saberia tomá-lo e guardá-lo. Peguei do embrulho e dei-lho.” (Pág. 75)

“Esta sarna de escrever, quando pega aos cinquenta anos, não despega mais. Na mocidade é possível curar-se um homem dela…” (Pág. 77)

“… o coração, quando examina s possibilidade do que há de vir, as proporções dos acontecimentos e a cópia deles, fica robusto e disposto, e o mal é menor mal.” (Pág. 83)

“As visões feminis seriam de ora avante consideradas como simples encarnações dos vícios, e por isso mesmo contempláveis, como o melhor modo de temperar o caráter e aguerri-lo para os combates ásperos da vida.” (Pág 85)

“… e vale sempre entrar no mundo ungido com os santos óleos da teologia…” (Pág 87)

“Uma vez que o filho não pode servir a Igreja, como deve ser servida, o melhor modo de cumprir a vontade de Deus é dedicá-lo a outra coisa. O mundo também é igreja para os bons…” (Pág 89)

“Nunca dos nuncas poderás saber a energia e obstinação que empreguei em fechar os olhos, apertá-los bem, esquecer tudo para dormir, mas não dormia.” (Pág 92)

“Donde concluo que um dos ofícios do homem é fechar e apertar muito os olhos, e ver se continua pela noite velha o sonho truncado de noite moça.” (Pág 92)

“… fui à janela indagar da noite por que razão os sonhos hão de ser assim tão tênues que se esgarçam ao menor abrir de olhos ou voltar de corpo, e não continuam mais.” (Pág 93)

“Mas os tempos mudaram tudo. Os sonhos antigos foram aposentados, e os modernos moram no cérebro da pessoa.” (Pág 93)

“A vida é cheia de obrigações que a gente cumpre, por mais vontade que tenha de as infringir deslavadamente.” (Pág 96)

“Ora, há só um modo de escrever a própria essência, é contá-la toda, o bem e o mal.” (Pág 99)


Mais trechos de Dom Casmurro (II)

Machado de Assis escreve em Dom Casmurro:

“Agora só cumpria as obrigações do ofício e sem amor”. (Pág. 13)

“Com efeito, há lugares em que o verso vai para a direita e a música para a esquerda. Não falta quem diga que nisso mesmo está a beleza da composição, fugindo a monotoniam e assim explicam o terceto Éden, a ária de Abel, os coros da guilhotina e da escravidão. Não é raro que os mesmo lances se reproduzam, sem razão suficiente. Certos motivos cansam à força da repetição.” (Pág.16)

“Prazos largos são fáceis de subscrever; a imaginação os faz infinitos.” (Pág.18)

“… em vós me ficou a melhor parte da crise, a sensação de um gozo novo, que me envolvia em mim mesmo, e logo me dispersava, e me trazia arrepios, e me derramava não sei que bálsamo. Às vezes dava por mim, sorrindo, um ar de riso de satisfação, que desmentia a abominação do meu pecado.” (Pág. 19)

“Conhecia as regras do escrever, sem suspeitar as do amar; tinha orgias de latim e era virgem de mulheres.” (Pág. 23)

“Levantei os olhos ao céu, que começava a enbruscar-se, mas não foi para vê-lo coberto ou descoberto. Era ao outro céu que eu erguia a minha alma; era ao meu refúgio, a meu amigo.”
(Pág. 32)

“A soma era enorme. A razão é que eu andava carregado de promessas não cumpridas.” (Pág. 32)

“Desde pequenino acostumara-se a pedir ao céus os seus favores, mediante orações que diria, se ele viessem.” (Pág. 33)

“… cada promessa nova era feita e jurada no sentido de pagar a dívida antiga.” (Pág. 33)

“Os sonhos do acordado são como os outros sonhos, tecem-se pelo desenho das nossas inclinações e das nossas recordações.” (Pág. 43)


Trechos de Machado de Assis em Dom Casmurro

Machado de Assis escreve em Dom Casmurro:




“O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência. Pois, senhor, não consegui recompor o que foi nem o que fui. Em tudo, se o rosto é igual, a fisionomia é diferente. Se só me faltassem ou outros, vá; um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo.” (Pág. 6)

“Entretanto, vida diferente não quer dizer vida pior; é outra coisa.” (Pág. 7)

“A certos respeitos, aquela vida antiga aparece-me despida de muitos encantos que lhe achei; mas é também exato que perdeu muito espinho que a fez molesta, e, de memória, conservo alguma recodação doce e feiticeira.” (Pág. 7)

“José Dias amava os supelativos. Era um modo de dar feição monumental às idéias; não as havendo, servia a prolongar as frases.” (Pág.9)


Das leituras de Matthew Kelly

Matthew Kelly escreveu em Os sete níveis da Intimidade:

“Mesmo o que não dizemos e não fazemos revela algo sobre nós” (Pág. 16)

“Receamos que as pessoas deixem de nos amar se nos conhecerem de verdade” (Pág.20)

“Quando revelamos nosso conflitos, damos aos outros coragem para fazer o mesmo” (Pág.21)

“A sensação de ninguém nos conhece de verdade pode ser uma das formas mais debilitantes de solidão e é gerada por noss própria falta de disposição para nos revelar” (Pág. 22)

“O mais fascinante não é o que as pessoas pensam ou no que acreditam,
mas o motivo que as fez acreditar naquilo” (Pág. 26)

“Antes de aprender a estar com outra opessoa, você precisa aprender a ficar sozinho” (Pág. 31)

“… é necessário ficar só para descobrir o enorme valor da solidão. As pessoas realmente excepcionais fizeram essa descoberta” (Pág. 32)

“A verdade tragédia acontece quando achamos que já conhecemos alguém e paramos de procurar descobrir essa pessoa” (Pág. 34)

“Intimidade nem sempre significa descobrir coisas novas. Algumas vezes significa ver de maneira diferente aquilo que sempre estev na sua frente” (Pág. 34)

“É o propósito que nos inspira a respeitar nossos compromissos” (Pág. 40)

“Quando a gente se concentra no que é bom, em vez de focar o que é errado, a vida melhora consideravelmente” (Pág. 50)

“Agradecer aquece a alma e nos lembra que a vida é um privilégio extraordinário” (Pág. 51)

“A disciplina é a estrada que leva à plenitude da vida” (Pág. 54)

“Ser livre é ser capaz de escolher” (Pág. 55)

Coitado do Aldovandro!


No conto ‘’O colocador de pronomes’’, de Monteiro Lobato, o jovem Aldovandro Cantagalo deseja namorar Laurinha, a filha mais bonita do coronel Triburtino Mendonça e escreve-lhe um bilhete que dizia o seguinte:


‘’Anjo Adorado! Amo-lhe…”

O coronel ao descobrir o bilhete, indaga o rapaz sobre suas intenções e diz que agora ele tem que casar e chama a Do Carmo (filha feia). O jovem fica surpreso e o velho diz:

… Você mandou este bilhete à Laurinha dizendo que ama-”lhe”. Se amasse a ela deveria dizer amo-”te”. Dizendo “amo-lhe” declara que ama a uma terceira pessoa, a qual não pode ser senão a Maria do Carmo.


Resultado?

Aldovandro teve que se casar com a feiosa da Do Carmo.

Viu a conseqüência de uma palavra mal colocada?