O HOMEM QUE PINTAVA CORPOS





Vê as pessoas como telas brancas; dedos são pinceis, as suas palavras são as variações das cor. De mão livre percorre a pele dando à ela o símbolo imaginado. Não se trata de meros desenhos, não há barganha no rascunho, há sentido no traçado. Soma-se à sua técnica apurada a doçura capaz de capturar a marca tão sonhada. Ele ensina que tatuar a pele não é um ato banal, mas uma escolha perpétua que deve traduzir muito mais a essência do que a aparência. Há beleza, há conceito estético, mas no fim das contas, há cumplicidade. São sentimentos gravados na epiderme. E é isso me faz querer ser tela.



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A MENINA QUE FOTOGRAFAVA




Ela andava pelas vielas e becos escuros, cheios de pessoas e sombras. Necessariamente procurava expressões, costumeiramente disfarçadas atrás de um sorriso ou de uma garrafa. Era o seu trabalho. Capturar o momento; registrar o acontecido, enquadrar em resolução o frenesi alheio. Tinha a sua mão direita atada ao seu equipamento e a esquerda ao seu Baluarte. Temeu a segurança de suas armas de guerra, não apenas pelo preço que custaram, mas sim, pelo valor atribuído. Às vezes tímida, simples. Quase sempre com força na voz, imprime na vida a construção de seu sonho. Admiro e capturo o seu brio.




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A MOÇA QUE DANÇAVA E SORRIA





Não sei se era o balanço, o instrumento ou sorriso, o que mais prendia o olhar do povo. Ela mexia com a independência de quem não precisa pedir pra fazer. Girando pelas ruas do velho bairro ela arrastava seu molejo como um desenho riscado no chão. Temperava o batuque com um quê de euforia. Na dúvida, fico com o sorriso. Dava inveja ao próprio samba que dançava por que ela não tinha nota, era notada. Me fez gravar o seu gingado em imagem e querer àquela liberdade como amuleto.



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A MULHER QUE CARREGAVA PLANTAS







Ela chegou ofegando, esbravejando sua raiva com alguém que a acusou de roubo. Na verdade, ela apenas disse que gostava muito de plantas. Se roubou ou não, pouco me importou. Um pouco enfurecida, ela me perguntou se eu iria ”tirar seu retrato”, menti! Então ela se foi, com seus jarrinhos e suas amigas samambaias. Seu ar meio perturbado me deixou surpreso, ao mesmo tempo, que me fez querer ter mais cuidado com as coisas simples.




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O SENHOR QUE ME OBSERVOU








Ele andava muito devagar, apoiando em sua bengala, me viu fotografando um pé de Acerola e parou! Enquanto eu buscava o foco, ele me observava … Não nos falamos, apenas ficamos ali, olhando um pro outro, por alguns segundos. Não houve necessidade de palavras; seu olhar aparentava enxergar o que eu via naquela singela planta. Alguns movimentos dos seus olhos pareciam perguntar: o que esse garoto está aprontando? Talvez ele tenha visto em mim algum momento de si mesmo. O que posso dizer é que vi nele uma curiosidade serena que eu quero ter.



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