Das leituras de Alberto Caeiro (II)

Continuo a passear pelos verdes campos com Caeiro. Trago mais alguns trechos de nossas conversas sob o sol radiante de Lisboa…

Alberto Caeiro, escreveu em O guardador de Rebanhos:

XIV
Não me importo com as rimas. Raras vezes
Há duas árvorees iguais, uma ao lado da outra.
Penso e escrevo como as flores têm cor
Mas com menos perfeição no meu modo de exprimir-me
Porque me falta a simplicidade divina
De ser todo só o meu exterior

( … )

XVIII
Quem dera que eu fosse o burro do moleiro
E que ele me batesse e me estimasse…

Antes isso que ser o que atravessa a vida
Olhando para trás de si e tendo pena…

( … )

XXI
Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Seria mais feliz um momento…
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural…

( … )

XXIV
O que nós vemos das coisas são as coisas.
Porque veríamos nós uma coisa se houvesse outra?
Porque é que ver e ouvir seria iludirmo-nos
Se ver e ouvir são ver e ouvir?

O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê,
Nem ver quando se pensa.

( … )

XXVI
Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta,
Em que as coisas têm toda a realidade que podem ter,
Pergunto a mim próprio devagar
Porque sequer atribuo eu
Beleza às coisas.

Uma flor acaso tem beleza?
Tem beleza acaso um fruto?
Não: têm cor e forma
E existência apenas.
A beleza é o nome de qualquer coisa que não existe
Que eu dou às coisas em troca do agrado que me dão.
Não significa nada.
Então porque digo eu das coisas: são belas?

( … )

XXVII
Mas as coisas não têm nome nem personalidade:
Existem, e o céu é grande e a terra larga,
E o nosso coração do tamanho de um punho fechado…

Bendito seja eu por tudo quanto não sei,
Gozo tudo isso como quem sabe que há sol.

( … )

XXVIII
É preciso não saber o que são flores e pedras e rios
Para falar dos sentimentos deles.
Fala da alma das pedras, das flores, dos rios,
É falar de si próprio e dos seus falsos pensamentos,
Graças a Deus que são as pedras são só pedras,
E que os rios não são senão rios,
E que as flores são apenas flores.

( … )
XXIX
Nem sempre sou igual no que digo e escrevo.
Mudo, mas não mudo muito.

….

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